Sarkozy faz teatro contra a web

 

A ironia não poderia ser mais óbvia. Em maio, o presidente francês Nicolas Sarkozy encenou uma peça de teatro político chamada e-G8, que usou como plataforma para defender a ideia de que os governos devem exercer controle mais rígido sobre a internet. Logo em seguida, Sarkozy deu as boas-vindas aos representantes dos governos interinos da Tunísia e do Egito na reunião normal do G8. Sem a internet — e em especial sem a mídia social —, as revoluções na Tunísia e no Egito simplesmente não teriam ocorrido.

O problema de Sarkozy é que, como outros líderes políticos, ele não gosta dos meios de comunicação sobre os quais o governo não tem autoridade decisiva. Com a chegada da internet, conceitos amplos como liberdade de pensamento e expressão ganharam força real. Antes, direito de expressão fazia sentido apenas para pessoas influentes, capazes de usar o jornal, o rádio e a TV.

Essa mudança apavora políticos como Sarkozy. Em seu discurso na abertura do e-G8, ele disse à audiência de luminares digitais do mundo inteiro: “O universo que vocês representam não é um universo paralelo. Não se deve esquecer que os governos são os únicos representantes legítimos da vontade do povo em nossas democracias. Esquecer isso seria correr o risco de cairmos no caos e na anarquia”.

Super-regulamentação

Os delegados do e-G8 tremeram quando Sarkozy declarou: “Precisamos ouvir as aspirações e as necessidades de vocês (…), mas vocês precisam ouvir nossos limites, nossas restrições”. Durante um dos painéis de discussão, Eric Schmidt, presidente do conselho do Google, respondeu a Sarkozy, dizendo: “O senhor quer regulamentar indústrias nascentes e inovadoras. Claramente, é necessário ter algum nível de regulamentação para coisas nocivas. Mas eu seria mais cuidadoso com a super-regulamentação da internet”.

“Não sou capaz de imaginar”, continuou Schmidt, “algum delegado desta conferência que queira ver o crescimento da internet desacelerado por um governo que ponha em prática alguma regra estúpida.” Schmidt tem a perspectiva correta. O debate apropriado não deve ser feito entre a visão opressiva de Sarkozy e a ideia de nenhuma regulamentação. Obviamente, as regras para o ciberespaço devem ser as mesmas que valem no mundo real.

Um novo meio de comunicação está causando ruptura, deslocamento e incerteza. Como seria previsível, os líderes políticos acostumados com a era industrial sentem-se tontos e confusos. Muitos, até ameaçados. Além disso, líderes dos velhos paradigmas com interesses velados temem o que não entendem, e reagem com frieza ou hostilidade. Em vez de inovar e abrir as portas, eles se trancam, tentando fortalecer regras e concepções já vencidas.

Libertação

Muita gente me pergunta se fazia sentido incluir a internet na agenda do G8. É claro que sim. O que não se pode admitir é a perspectiva de que essa tecnologia represente alguma ameaça para as democracias mundiais. Ao contrário. Os líderes do G8 deveriam preocupar-se em promover o crescimento da internet em seus próprios países e no mundo inteiro. Em vez de discutir restrições, melhor seria se concentrassem suas energias numa forma de como liberar usuários em países não democráticos como a China.

 

Fonte:http://info.abril.com.br/noticias/tecnologia-pessoal/sarkozy-faz-teatro-contra-a-web-26082011-4.shl

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